Posted by Marcos Terra | Posted in Sem categoria | Posted on 05-05-2010
Tags:caipira, Itapetininga, Menino da Porteira, musica sertaneja, Ouro fino, rei do gado, Teddy Vieira
O pai do menino da porteira
Nascido em Itapetininga, Teddy Vieira é autor do clássico sertanejo que serviu de inspiração para o longa que, em sua refilmagem, traz o cantor Daniel como protagonista
Incluída entre as cidades nas quais O Menino da Porteira começou a ser exibido, Itapetininga, na região de Sorocaba, parece não ter se dado conta do que o filme representa para sua própria história.
Essa, ao menos, é a opinião do pesquisador Francisco Wey, amigo e estudioso da vida e obra de Teddy Vieira que, nascido no município, compôs, ao lado de Luizinho, a canção de mesmo nome que deu origem à produção.
Um dos ícones do gênero sertanejo, Teddy escreveu também outros clássicos, como O Rei do Gado, João de Barro, Couro de Boi e Querência Distante. A bronca do pesquisador se deve ao fato de que, segundo ele, pouca coisa se faz em Itapetininga para reverenciar a memória de um de seus mais ilustres filhos.
O próprio Wey criou, na década de 80, um festival em homenagem a Teddy Vieira, mas o evento teria se pasteurizado ao abandonar a proposta de valorizar a chamada música de raiz e abrir espaço para a vertente romântica, de maior apelo comercial. Hoje em dia, as pessoas preferem escutar rock; não tem mais lugar para a qualidade, a poesia, reclama.
Na conversa com o Mais Cruzeiro, Chico Wey, como é também chamado, lembrou que Vieira produziu mais de 300 canções, entre toadas, cururus e outros ritmos. O Menino da Porteira, talvez a mais conhecida de suas criações, data da década de 50.
Consta que Teddy Vieira a compôs quando ia para a casa da então namorada, América Rizzo, com quem se casaria depois. A moça morava em Andradas, no sul de Minas Gerais. A cidade ficava perto de Ouro fino, cujo caminho Teddy percorria.
Daí a surgirem os versos Toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino…, não demorou tanto tempo. Ao contrário do que pensam muitos, a história contada na música, do menino que ficava em cima da porteira, pedia moeda aos passantes e que morreu atropelado por um touro não é real.
Vieira dispunha de uma inspiração e sensibilidade acima da média. Observador e absolutamente apaixonado por tudo o que se relacionasse ao universo rural, transformou o cenário tomado de rebanhos de gado, peões e outros personagens em canções antológicas.
Francisco Wey destaca que praticamente todas as obras de Teddy Vieira têm um fundo de moral. Ou seja: ele procurou transmitir, com o trabalho, mensagens, ensinamentos. O Menino…, assim, é uma entre tantas produções que apresentaram essa característica.
É como se ele escrevesse fábulas, aquelas que retratam determinadas situações e fazem as pessoas refletirem sobre o que é melhor. Quem prestar atenção, verá que as letras pregam bons exemplos, comentou.
O curioso é que Teddy Vieira teve uma trajetória que poderia tê-lo conduzido a outra realidade, que não aquela que escolheu. Filho de um marinheiro viveu numa família com padrão social razoável.
Formou-se em administração e chegou a ocupar o cargo de Diretor de Finanças da Prefeitura de São Paulo, cargo equivalente ao de Secretário da Fazenda. Quase ninguém acredita, mas Teddy era absolutamente autodidata em se tratando de música.
Suas referências ficavam por conta do que ouvia no rádio e da percepção que exercia. Certa vez, enquanto aguardava o trem onde estava seguir viagem, olhou na direção de uma árvore onde a fêmea de um João de Barro dividia o galho com outro pássaro. Era um Bem-Te-Vi, esclarece Francisco Wey.
Ficou, ali, prestando atenção e comprovou, na prática, uma história bastante contada no campo: a da infidelidade entre as aves. Consta que a fêmea da espécie é, mesmo, volúvel. Tanto assim que, como punição, é aprisionada no ninho pelo macho e ali morre.
Teddy Vieira encontrou, no episódio, inspiração para escrever outro sucesso. Na canção, conta a história de um homem que é também traído, mas que, ao contrário do passarinho, decide relevar o mal feito. A ingrata eu pus pra fora, por onde anda eu não sei, diz a letra.
Em Couro de Boi, outro tema repleto de sentimento, Vieira fala da triste realidade dos pais que, depois de criarem os filhos, sofrem com o abandono. A música conta a história de um homem que tem de sair de casa por exigência da mulher de seu filho.
A Caneta e a Enxada faz uso da metáfora para falar das desigualdades. A primeira, na história contada na canção, representa o orgulho; a segunda, a humildade. A discussão entre as duas rende momentos belíssimos, principalmente nos versos finais que dizem: Vai-te caneta orgulhosa, vergonha da geração/A tua alta nobreza não passa de pretensão/Você diz que escreve tudo, tem uma coisa que não/É a palavra bonita que se chama…. educação!.
Religioso, Teddy Vieira tinha na camaradagem outro traço marcante de sua personalidade. Embora tivesse assinado muitas composições em parceria, é certo que, de acordo com Francisco Wey, em várias delas teria admitido a co-autoria para ajudar um ou outro amigo. Diretor artístico das gravadoras Chantcler e Continental, Vieira apadrinhou inúmeros artistas. Tem composições gravadas por duplas famosas como Tonico e Tinoco, Liu e Léu, Vieira e Vierinha, e Sérgio Reis, entre outros.
Teddy não cantava, mas acompanhava os amigos em shows realizados pelo interior. Foi na volta de uma dessas apresentações, em dezembro de 1965, que ele morreu de maneira trágica.
No Cinca Chambord que comprara há pouco tempo, conta Francisco Wey, seguia pela Raposo Tavares quando, na altura do quilômetro 139, em Sarapuí, tentou ultrapassar um ônibus. Em sentido contrário, seguia um caminhão que não evitou o choque.
Estavam no veículo, além de Teddy Vieira, os Irmãos Divino, o empresário Paulo Marquez, a esposa e filho deste e mais um produtor. Ninguém sobreviveu ao acidente.
Francisco Wey não tem a pretensão de reparar o esquecimento a que Vieira teria sido relegado, mas trabalha para evitar que o autor de O Menino da Porteira se torne apenas uma referência. Ele projetou o nome de Itapetininga no país todo e merece um pouco mais de respeito.
José Antônio RosaNotícia publicada na edição de 11/03/2009 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno B




