Festa na Varanda com Comendador Pedraco
Vídeo utilizado para inscrição do Projeto “Festa na Varanda com Comendador Pedraco” no edital “II Prêmio Inclusão Cultural da Pessoa Idosa”
O BAILE DO PEDRACO
Ana Claudia Araujo Mazzarino
(Objeto de Estudo Acadêmico)
Domingo. Cinco horas da manhã, começa a feira-livre na praça central da cidade. Na praça das escolas, de uma cidade de mais de 200 anos. Na praça da primeira escola normal do interior do Estado de São Paulo. Na praça que há anos representa a construção do conhecimento e da cultura eruditos. Terra do conhecimento! Desse habitat saíram direto para as melhores universidades cientistas, historiadores, educadores, matemáticos e muitos outros que transitaram pelas gerações que sustentam essa origem, reproduzindo com orgulho sua estirpe. Anos a fio. Nem mesmo as modificações sócio-econômicas do país conseguiram abalar a altivez de pertencer à essa história. Uma história de elite intelectual, hoje abalada nas suas estruturas.
Cinco horas da manhã começa a feira-livre. Aos poucos o movimento das pessoas se acelera e se intensifica. Os chamados característicos dos feirantes. O colorido das bancas. Nesse cenário se instala também o palco de uma representação de costume local. Erudita? Não. Intelectual? Não. De elite econômica? Também não. É apenas o palco das apresentações de músicas regionais, do encontro de pessoas numa relação de compadrio muito forte e significativa na região, da conversa domingueira da vida social de um grupo de pessoas que fazem desse o cenário de sua vida, de sua possibilidade de lazer, de seu contato social.
Mas essa paisagem está recheada de valores, tradições, simbologias. Construção de hábitos também antigos, independente da idéia de erudição que paira nesse ambiente geográfico, dialoga e convive nesse espaço, até então letrado. Ali os pequenos negociantes de bugigangas trocam de tudo, torradeiras elétricas, aros de bicicleta, máquinas de escrever, lampiões e celulares. Ferramentas, DVDs, óculos de grau e fitas cassete. Tudo estendido no chão da praça. Ali roceiros e todo tipo de trabalhador braçal tornam-se músicos de uma experiência adquirida com a vida, crescem, se agigantam, brilham e provocam os detentores de uma cultura clássica e formadores de opinião, que sem muitas delongas, insistem em lançar um olhar de estranhamento para essas manifestações de relações espontâneas. Como se analisassem um fenômeno complexo recém descoberto e que insiste em se manter independente, e alheio às opiniões e teses acerca de sua existência.
Mas será que estes pólos se mantêm distantes e independentes? Eles circulam e sobrevivem sozinhos? Até que ponto eles se inter-relacionam e interferem uns nos outros? Milton Santos observa que “através das técnicas o homem realiza a sua vida, produz e, ao mesmo tempo cria espaço” (2006, pag16). E, acredito não ser errado arriscar dizer que na ruptura do caráter político-econômico inicial da cidade as relações de trabalho se alteraram profundamente e dividiram a realidade em posições distintas, dentro do mesmo meio, onde as técnicas de trabalho, aliadas às possibilidades de sobrevivência concernentes a cada bairro, determinaram as relações e orientaram o espaço social para uma “convivência” paralela, mas não para uma unidade. Logo criaram-se espaços diferenciados dentro do mesmo espaço circunscrito onde os indivíduos convivem reciprocamente, sem se esbarrarem, porém conscientes da presença de ambientes diferentes: “É o espaço que redefine os objetos técnicos, apesar de suas vocações originais, ao incluí-los num conjunto coerente onde a contigüidade obriga a agir em conjunto e solidariamente” (Santos, M. 2006,p.24). O ciclo dos acontecimentos locais manteve tradições tão marcantes que tornaram esse evento semanal um marco na cidade, praticamente pararam o tempo naquela cavidade espacial, e criou-se um interstício histórico, marcado pela ajunção das diferentes culturas de uma mesma localidade.
“É desse modo que o espaço testemunha a realização da história, sendo, a um só tempo, passado, presente e futuro” (Santos, M. 2006, pág.102)
O Contexto
Com um passado histórico-cultural tão rico de elementos, a cidade se desestruturou ao sofrer o peso de um boicote político-econômico, na década de 30. Sua elite intelectual tentou de todas as formas manter-se atuante, mas foi o comércio e a agricultura que passaram a ser o sustentáculo econômico, e os ideais culturais deixaram de ser os acadêmicos e o status social, antes pautado no conhecimento erudito, agora é ditado pelas posses financeiras dos pequenos comerciantes. Quase uma repetição do passado histórico que marcou a relação burguesia-aristocracia durante a Revolução Industrial. E também, de certa forma, reforça a idéia de um distanciamento entre três pólos: cultura-economia-conhecimento.
É fato, no entanto, que houve a necessidade de uma adaptação e uma convivência que desse conta de um diálogo entre a estrutura de elite cultural e a informalidade da cultura que se compôs à partir das relações comunitárias não-elitizadas pelo passado histórico do local. Segundo Alfredo Bosi, “o que caracteriza a cultura extra-universitária é precisamente o seu caráter difuso, mesclado intimamente com toda a vida psicológica e social do povo” (2006, pág. 320), e nesse sentido, as comunidades de bairro se mantêm vivas e persistentes através de representações humanas como a feira de bugigangas e o Baile do Pedraco, onde, a vida social se estabelece com os contatos feitos nessas ocasiões. Não que não haja uma mescla, afinal a cultura local se reserva também às suas características cumulativas e adaptativas, todavia, fica clara a constância em se manter viva a tradição do baile.
Interessante seria nos apercebermos de que com os meios de produção sistematizados e a economia de mercado, a cultura, ou melhor, a percepção da mesma pelos observadores acadêmicos se fragmentou. È como se a especificidade do conhecimento e a observação cada vez mais particular sobre a cultura fizesse com que esta só desabrochasse para o mundo sob o “olhar” atento e especializado daqueles que a estudam como um elemento separado de seu corpo, como observadores e não como parte integrante desse processo. È como se a cultura popular, estabelecida nessas ocasiões, não fizesse parte da nossa constituição sócio-cultural e não fossemos sujeitos do mesmo processo.
O ambiente sociológico
Mas essa “construção” cultural está recheada de elementos facilitadores, que caminham paralelamente aos apelos emocionais, e de sedução material, que sugerem necessidades antes tão distantes e hoje tão reais e imperativas. O “baile do Pedraco” é uma vida paralela, que resulta de uma cultura “paralela”, porém não menos legítima, institucionalizada em termos diferentes do acesso à informação erudita ou ainda à manutenção econômica. Instituição sim, de permanência e reprodução de hábitos e costumes que são vividos simplesmente e independentemente das pessoas integradas nesse espaço e do acesso à educação formal que elas possam ter ou não. É uma possibilidade meramente factual. È o resultado cultural de um grupo que não tem origem acadêmica ou de mercado, no entanto, não se descartam os fatores sócio-econômicos de sua origem. Os grupos não se misturam. Funcionam ainda como uma espécie de manifestação “em extinção”. Na visão econômica e acadêmica, estão fadados a acabar ou sucumbir aos apelos, ou imposições, tecnológicos do mundo atual, como se não tivessem força nem memória suficientes, ou ainda, como se toda a gama de valores morais estivesse pautada em uma ética pura do capitalismo. Desconsidera-se o grupo como gerador de cultura. Desconsidera-se o indivíduo como ser crítico, capaz de escolhas para si próprio, que pode optar em não viver o mundo como a massa sobrevive. Desconsidera-se a potencialidade do conhecimento vivencial como formador de senso crítico.
Longe estamos de imaginar um encerramento de valores, em que não se aceita outras manifestações. Longe aqui estamos de sugerir um tradicionalismo que se encerre em suas próprias construções culturais e se feche para as demais influencias que, naturalmente e pela própria dinâmica da cultura, acabam por acrescentar e mesclar suas manifestações. No entanto o maior questionamento, à nosso ver, se dá no sentido de uma superficialidade tal dos padrões culturais inerentes à grupos como os que freqüentam o “Baile do Pedraco”, que os coloca na prateleira como subsídios de pesquisa e estudos, mas não mais como indivíduos que vivem e convivem segundo sua próprias expectativas, que, muitas vezes, estão longe de ser voltadas para um entendimento, uma análise cultural, mas são vividas meramente um dia após o outro com a simplicidade de quem acorda e se deita sem muitos questionamentos. Busca nesse lazer a possibilidade de aliviar seu dia-a-dia assim como o acadêmico ou o executivo o fazem através de investimentos intelectuais, materiais e até mesmo virtuais.
Conclusão
A nosso ver os processos gerados pelas diferentes possibilidades de sobrevivência e aquisição de bens de consumo, não se dão de maneira diferenciada para o indivíduo que se encontra diretamente sob a influência dos apelos de consumo e aquele que não está diretamente sob seu foco, mas o impacto causado pelo processo psicológico da indústria cultural varia da assimilação pelo tempo x o imediatismo sugerido pela cultura de obsolescência. Há uma diferença entre os processos de imposição dos bens culturais e aqueles que proporcionam uma interação adaptativa. Entre eles está a comunicação primária como um forte elemento catalizador que, parece-nos, tende a culminar com um processo mais harmônico de modificações que partirão do micro para uma macro integração entre os elementos e indivíduos.
Será a velocidade e a quantidade de informações que recebemos diariamente, capaz de gerar pessoas mais críticas do que a tradição cultural capaz de manter as raízes que nos dão segurança de que nossos valores são sustentáveis e coerentes com o que realmente acreditamos ser uma ética de relações? As relações desse grupo são pautadas em todo um universo de acontecimentos, vivências, simbologias. Pautadas no cotidiano puro e simples que se reproduz como um todo, e não de maneira fragmentada e especializada.
Ali o universo material e simbólico se misturam numa cadência própria, gerando um padrão simbólico muito peculiar, que resiste aos afincos eruditos, sem se perder na individualidade da massa, pois é capaz de enxergar que não se mantém única e exclusivamente no indivíduo, mas no sujeito que atua e encontra resposta para sua existência no retorno obtido com a existência do outro. Ele só existe porque o outro existe. Esse é o sujeito cindido pela sua cultura de raízes.




